Após a publicação da Série The Lancet sobre Ultraprocessados e Saúde Humana, em novembro de 2025, a revista científica The Lancet selecionou cinco correspondências — enviadas por pesquisadores, representantes da indústria e formuladores de políticas públicas — para serem respondidas por alguns dos autores da Série.
O debate completo será publicado em 5 de março. Assinam a Carta de resposta Carlos Monteiro e Leandro Rezende (Nupens/USP), Phillip Baker (University of Sydney), Marion Nestle (New York University), Camila Corvalán (Universidad de Chile) e Barry Popkin (University of North Carolina at Chapel Hill).
Precisão regulatória da classificação Nova
David S. Ludwig (vinculado à Harvard Medical School, nos EUA) questiona se a classificação Nova teria precisão suficiente para orientar regulações de alimentos individuais. Argumenta que o sistema poderia desconsiderar evidências sobre nutrientes e aditivos específicos e aponta que diferentes subgrupos de ultraprocessados podem apresentar associações distintas com desfechos de saúde.
Resposta dos autores: A Nova não substitui a ciência dos nutrientes, mas a complementa ao considerar o processamento como determinante estrutural dos padrões alimentares. Regulamentações devem combinar critérios nutricionais e marcadores de ultraprocessados. O foco relevante para políticas públicas não é um produto isolado, mas o padrão alimentar como um todo e o fenômeno de substituição de alimentos frescos por ultraprocessados.
Limitações metodológicas na mensuração do consumo
Gunter G. Kuhnle (Universidade de Reading, no Reino Unido) argumenta que muitos estudos epidemiológicos utilizam instrumentos dietéticos que não foram originalmente desenhados para capturar o nível de processamento dos alimentos, o que poderia gerar erros de classificação na exposição.
Resposta dos autores: Os pesquisadores reconhecem limitações metodológicas, mas afirmam que a classificação incorreta tende a reduzir – e não inflar – as associações observadas. À medida que instrumentos alinhados à Nova são incorporados, as evidências tornam-se mais consistentes. Alertam ainda que subdividir ultraprocessados em categorias muito específicas pode gerar instabilidade analítica.
Classificação de sucos reconstituídos
Aintzane Esturo e Tatiana Campos (Associação Internacional de Sucos de Frutas e Vegetais, França) solicitam revisão da classificação de sucos 100% reconstituídos como ultraprocessados, argumentando que, segundo o Codex Alimentarius, esses produtos preservariam características essenciais da fruta.
Resposta dos autores: A concentração, armazenamento e reconstituição alteram a matriz alimentar e os padrões típicos de consumo. Para políticas públicas, o relevante é o impacto populacional e o deslocamento de frutas frescas por bebidas reconstituídas, e não casos marginais isolados.
Influência da indústria e conflitos de interesse
Dirk Jacobs e Rafael Sampson (FoodDrinkEurope, principal associação que representa a indústria de alimentos e bebidas na União Europeia) criticam propostas para limitar a influência corporativa na pesquisa e nas políticas públicas, argumentando que isso restringiria o debate científico.
Resposta dos autores: Transparência isolada não neutraliza vieses quando há conflito entre interesses comerciais e saúde pública. Com base em evidências acumuladas em áreas como tabaco, álcool e combustíveis fósseis, defendem salvaguardas institucionais contra conflitos de interesse. Tais medidas, afirmam, fortalecem a ciência.
Aplicação prática da Nova em políticas públicas
Lilian dos Santos Rahal e colegas, representando o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome do Brasil, destacam a nova Cesta Básica Nacional como exemplo de aplicação prática da classificação Nova. A política exclui ultraprocessados de compras públicas e articula instrumentos fiscais, agrícolas e de segurança alimentar.
Resposta dos autores: A experiência brasileira demonstra que critérios baseados no nível de processamento dos alimentos podem coexistir com padrões nutricionais e políticas intersetoriais. Segundo os pesquisadores, esse caso responde diretamente à crítica de que a Nova seria imprecisa para fins regulatórios.
As cartas publicadas na seção Correspondências representam as opiniões de seus autores e não necessariamente as do periódico The Lancet. Cartas ao Editor normalmente não passam por revisão por pares.
Para acesso completo às Correspondências : https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(26)00292-8/fulltext