Um estudo recente conduzido por pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP) apresenta uma metodologia inovadora para estimar a agrobiodiversidade que sustenta as dietas humanas, conectando o que comemos aos sistemas de produção de alimentos.
O artigo “Relação entre sistemas alimentares e consumo alimentar: uma metodologia para estimar a agrobiodiversidade das dietas humanas”, pblicado na revista científica One Earth, propõe uma forma de quantificar não apenas as espécies que consumimos diretamente como arroz e feijão, mas também aquelas utilizadas indiretamente na produção de alimentos, por exemplo as espécies de plantas usadas na alimentação de animais de criação. Essa abordagem amplia a compreensão sobre o impacto das dietas na biodiversidade e no funcionamento dos sistemas alimentares.
Agrobiodiversidade
A diversidade de espécies alimentares é fundamental tanto para a nutrição humana quanto para a estabilidade dos ecossistemas. Medir quantas espécies compõem as dietas humanas ajuda a entender a relação entre a produção agrícola e a diversidade alimentar. No entanto, as recomendações atuais de dietas sustentáveis raramente consideram essa diversidade de espécies e de recursos genéticos. Isso ocorre, principalmente, porque ainda faltam métodos capazes de identificar e acompanhar essas conexões.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a agrobiodiversidade refere-se à variedade e a variabilidade de animais, plantas e microrganismos usados direta ou indiretamente para a alimentação e a agricultura, incluindo cultivos, pecuária, silvicultura e pesca. Ela engloba, ainda, a diversidade de espécies que dão suporte à produção agrícola (microrganismos do solo, predadores, polinizadores) e daquelas presentes no ambiente mais amplo que sustentam os agroecossistemas (agrícolas, pastoris, florestais e aquáticos).
A biodiversidade agrícola é fundamental para atender às necessidades alimentares e nutricionais de uma população, ao mesmo tempo que reduz o impacto sobre o meio ambiente e os ecossistemas. O método proposto pelos pesquisadores do Nupens permite estimar, com maior precisão, a diversidade de espécies vegetais e animais associadas a diferentes padrões alimentares, levando em consideração os sistemas de produção de alimentos predominantes de cada país. A aplicação de tal metodologia em bases de dados distintas também tem o potencial de explorar os efeitos das dietas na saúde humana e planetária.
Entenda a metodologia
Trata-se de uma abordagem em quatro etapas que permite estimar a variedade e a quantidade per capita da biodiversidade alimentar (consideram-se apenas as espécies consumidas diretamente) e da agrobiodiversidade (para estimar as espécies que estão na base das dietas humanas):
Etapa 1: Identificação de dados dietéticos adequados ao propósito e elaboração de uma lista de alimentos.
Etapa 2: Desagregação de itens alimentares com múltiplos ingredientes em ingredientes individuais.
Etapa 3: Estimativa dos ingredientes de origem vegetal e/ou animal utilizados na alimentação animal e sua vinculação a alimentos de origem animal compostos por um único ingrediente.
Etapa 4: Identificação de dados em nível de espécie e sua vinculação aos dados dietéticos.
Aplicação da metodologia a dados brasileiros
A aplicação da metodologia em dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017 (POF), conduzida pelo IBGE, identificou 351 espécies distintas associadas à alimentação no Brasil, incluindo plantas, animais e outros organismos comestíveis (como cogumelos e algas).
Ainda assim, os resultados mostram que os padrões alimentares da população brasileira estão fortemente concentrados em poucas espécies. Em relação à diversidade de espécies diretamente consumidas, observou-se que as espécies relacionadas aos bovinos, arroz, trigo e açúcar responderam por grande parte do volume total adquirido pela população.
A concentração torna-se ainda mais evidente quando se consideram as espécies de plantas utilizadas na alimentação dos animais de criação. Por exemplo a braquiária, amplamente utilizada em pastagens no território brasileiro, representou mais de 80% da massa total de espécies mobilizadas pela dieta brasileira, refletindo a forte dependência da pecuária nacional de pastagens baseadas nessa espécie.
Por fim, o estudo aponta que, apesar do Brasil ser o país mais megabiodiverso do planeta, em todas as macrorregiões brasileiras, as mesmas seis espécies de plantas sustentam à dieta brasileira (braquiária, milho, soja, arroz, trigo e cana-de-açúcar) e foram responsáveis por mais de 95% da massa total de espécies demandadas, evidenciando uma ampla dependência de um número muito restrito de espécies o que gera impactos ecossistêmicos e sobre a saúde humana.
Saiba mais
Artigo: Linking food systems to food intake: A methodology to estimate the agrobiodiversity of human diets
Revista: One Earth
Autores: Fernanda Helena Marrocos-Leite; Giovanna Calixto Andrade; Eurídice Martínez Steele; Josefa Maria Fellegger Garzillo; Renata Bertazzi Levy; Jessica Fanzo; Carlos Augusto Monteiro e Neha Khandpur